Estrelinha

Eu já devia ter escrito essa história antes, meu filho, mas o papai precisou de um tempinho extra pra colocar as ideias em ordem. No meu último post, escrevi sobre um amigo do papai que “virou estrelinha” — como a gente fala hoje em dia com você — e eu queria contar aqui como foi aquele dia.

A sua mãe saiu cedo pra trabalhar e eu fiquei cuidando da sua rotina de manhã. Nada muito diferente… até que, pela primeira vez, a mamãe deixou um bilhetinho pra você. Ela escreveu algo como: “Tenha um bom dia, mamãe te ama muito” e, logo abaixo, desenhou um coração grande, pintado de vermelho. Você acordou, viu o bilhete, pediu que eu lesse, e eu disse:

— “Tenha um bom dia, mamãe te ama muito.”

E você, na sua lógica perfeita de criança, me corrigiu:

— “Coração.”

Como se o desenho fizesse parte da frase — e, claro, fazia. Mas a minha cabeça de adulto só percebeu a importância disso muito depois. Você ficou todo feliz, brincou, riu, a gente se arrumou e fomos para a escola, mais um dia normal… até que deixou de ser.

Na hora do almoço, resolvi descer pra academia do prédio. Primeira série, primeiro exercício… chega uma mensagem no grupo da escola no WhatsApp. “Sempre morre alguém nesses grupos… não quero ver notícia ruim agora, depois eu vejo”, pensei. Foram várias tentativas de ignorar. Até que li:

“Gente, o André Victor faleceu ontem em um acidente de moto em Paraty.”

Eu congelei. Só consegui escrever:

— “Que isso?”

Estavam me procurando, era conhecida a nossa proximidade, meu amigasso desde que eu era da sua idade atual, ninguém tinha meu telefone direto, tentaram falar comigo, me acharam, uma amiga ligou para contar melhor.

Fui trabalhar depois, tentando enganar a dor. Dei aula, voltei pra casa… sua avó tinha ido te buscar na escola. Eu entrei pela porta com quatro latas de cerveja na mão e uma vontade desesperada de chorar. Por algum motivo que até hoje não entendo direito, não queria chorar na sua frente. Talvez exista uma resposta guardada em algum lugar do meu corpo, mas naquele dia… eu simplesmente não quis. Quando a vontade batia, eu corria pro quarto e chorava escondido no meu quarto escuro.

Até que não aguentei mais. Sentei no sofá, luz amarela do abajur acesa, fim de tarde virando noite, e minhas mãos grudadas no meu rosto — ja pareciam extensão do meu rosto de tanto tempo que elas o tampavam. Aquele dia foi pesado. Eu já perdi muitos amigos… e acho que sou novo demais pra ter perdido tantos. Mas isso é assunto pra outro texto.

Eu estava ali, me sentindo um trapo, chorando por um amigo de infância com quem vivi tantas histórias que nem lembro de 20% delas… quando você, com 4 anos, veio e perguntou:

— “O que aconteceu, papai?”

— “O amigo do papai virou estrelinha… e eu nunca mais vou poder ver ele.”

Você saiu da sala, foi até a cozinha… e voltou colocou um papel em cima da minha cabeça, na hora eu senti mas não dei muita atenção. Era o coração desenhado no bilhetinho que a mamãe fez. Colocou bem em cima da minha cabeça, como se dissesse:

“Se me fez bem de manhã, pode ser que faça bem pra você também.”

Queria ter uma frase impactante pra fechar essa história… mas só tenho essa imagem na cabeça:

Peguei o papel. Olhei. Sorri pela primeira vez no dia.


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